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Entrevista – Quem não consegue lidar com risco não pode empreender.

Reitor de uma das principais escolas de negócios da Europa, a IE Business School, de Madri, Santiago Iñiguez de Onzono afirma que a crise pela qual passa o continente , com altas taxas de desemprego, é também uma oportunidade para novos negócios.

Também diz acreditar que o Brasil tem oportunidades em diversos setores. Leia a seguir os principais trechos da entrevista, concedida por telefone, de Madri.

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Folha – Como a crise e o desemprego têm afetado o empreendedorismo na Europa?

Santiago Iñiguez de Onzono – Momentos de crise são momentos de oportunidades também. No caso de empreendedorismo, algumas circunstâncias promovem mais o surgimento de negócios do que tempos de crescimento.
Separa-se o empreendedorismo em dois tipos: um é espontâneo, de pessoas que querem empreender. A outra categoria é chamada de empreendedorismo forçado, quando os empresários começam algo porque não têm oportunidade de trabalhar como empregados. Começam suas próprias empresas, trabalham como freelancers ou decidem encontrar oportunidades por conta própria.

As empresas estão mais preocupadas em inovar, nesse cenário?

Para inovar, é importante ter investimento. Mas essa não é uma condição sem a qual inovação não é possível. Inovação necessita também de certas rotinas, processos e culturas que são mais necessários do que apenas investimento em pesquisa.
Não digo que a crise tem as condições ideais para inovar. Mas note que o Google, por exemplo, foi criado em tempos de crise nos EUA, no final dos anos 1990.
É um tempo em que acontecem ajustes no comando de várias companhias. Esses momentos podem ser propícios para o crescimento de novas ideias, novos negócios e novos campeões.

Começar um negócio nessas condições não é também mais perigoso?

Pessoas que não conseguem lidar com o risco não podem ser empreendedores. Para empreender, você deve arriscar muitas coisas, inclusive sua própria reputação, as coisas que você guardou.
Conhecemos muitas histórias de empreendedores que falharam muitas vezes. Esses fracassos são oportunidades de aprendizado. O importante não é quantas vezes fracassou, mas o quão rápido você se levantou de novo.

Quais as principais características que uma pessoa precisa ter para ser empreendedora?

Um empreendedor precisa de determinação e resiliência. De senso de missão, de que deve mudar as coisas.
Quando você conhece um empreendedor, percebe isso. São pessoas que têm flexibilidade, conseguem adaptar suas ideias em diferentes projetos. Podem falhar, mas recomeçam rápido. São positivas, não ficam deprimidas. Logo recomeçam.
Têm de estar sempre olhando para a frente, para o próximo obstáculo. São pessoas que estão sempre pensando em como podem mudar o mundo.

É possível ensinar alguém a ser empreendedor?

Estudos mostram que essas características podem ser aprendidas. Ninguém nasce como um líder, isso é uma coisa cultural. Se você nasce em uma família em que o pai e a mãe são empreendedores, então é provável e natural que você também se torne um.
É como nos tempos antigos. Mozart foi um prodígio porque foi treinado por seu pai desde muito cedo. Mas, se você não tem esse ambiente, pode aprender isso na escola.

Como se ensina essas habilidades?

Várias atitudes podem ser aprendidas em um programa de MBA, em que você passa por situações de pressão, trabalha em um grupo multicultural, desenvolve seus planos de negócios e tem suporte de um mentor que conhece você desde o início. Mesmo que não se tornem empreendedores, podem reinventar mais tarde negócios familiares, grandes empresas ou a administração pública.

Por que conhecer sobre artes, história e humanidades é importante em sua escola?

Acreditamos que, ao inserir disciplinas de humanidades, desenvolvemos habilidades importantes para os gestores. Conhecer história é muito importante para saber que muitos erros do passado podem ser evitados no futuro. Não é por coincidência que Bernanke [Ben Bernanke, presidente do Fed, o banco central dos EUA] é um especialista em história econômica e conhece os fatos do crash de 1929.
Uma pessoa proeminente na política econômica norte-americana tem, com esse conhecimento, habilidades para tomar decisões corretas para o futuro.
Outro exemplo: temos módulos de design, para desenvolver habilidades de observação. Se você observar um arquiteto, verá o tempo que ele passa olhando as construções de diferentes ângulos, como é a incidência da sombra. Queremos ensinar essas habilidades para os gestores, pessoas que sempre tomam decisões muito rápidas. Se você os treina para serem mais observadores, vão começar a entender o risco de uma maneira diferente, vão tomar o tempo necessário para o processo de tomada de decisões.

O sr. diz que a literatura é importante também?

Certamente. Eu sempre digo que você pode aprender mais sobre liderança lendo Shakespeare do que em muitos livros sobre o tema.
Ensinar é passar valores, não só técnicas. Quando você lê, por exemplo, “Vidas Paralelas”, de Plutarco, que conta em detalhes histórias de pessoas renomadas da Grécia antiga, verá os conselhos que davam e as suas virtudes.
Bons gestores precisam, além de experiência e educação, cultivar virtudes como resiliência, atitude positiva, trabalho, generosidade, modéstia e compromisso com o crescimento da sociedade.

Como o sr. vê o momento do Brasil para empreender?

Eu acredito muito no Brasil. Percebo que ele é o novo mundo. Quando vou ao Brasil, o que faço algumas vezes por ano, percebo que a cultura de gestão está mudando.
O país tem vantagens se comparado com outros Brics. É uma democracia. Claro que ainda precisa de algumas reformas, mas a consolidação da democracia no Brasil e a luta da presidente Dilma Rousseff para acabar com a corrupção estão alcançando grandes progressos.
A sociedade está se desenvolvendo muito rápido, Nos últimos anos, 40 milhões de pessoas passaram da pobreza para a nova classe média, a educação está se tornando mais valorizada.
O Brasil valoriza muito a sustentabilidade, algo que sinto falta na China. Vejo os esforços para preservar a Amazônia.
A economia está crescendo, tem um bom número de multinacionais que são exemplos em áreas como finanças, bancos, aeroespacial e bens de consumo.

E o que precisa melhorar?

Se pudesse fazer algo para melhorar o país, diminuiria as várias dificuldades para entrada de algumas coisas. Em primeiro lugar, de talentos. O Brasil precisa atrair muitos talentos para realizar o plano de infraestrutura que o governo planeja e para ter mais empreendedores.
Para aumentar o crescimento, precisaria simplificar a emissão de vistos para pessoas com talento e diminuir os impedimentos legais para que empresas estrangeiras atuem no país.

Boa parte das novas oportunidades está relacionada com a internet?

Acredito que existam oportunidades em praticamente todo tipo de indústria. A começar pelas mais tradicionais, como automobilística e de energia, em que o Brasil é campeão no desenvolvimento de fontes renováveis.
Também há o setor de turismo. O Brasil se tornará destino não apenas para turistas mas também executivos, pois São Paulo está virando um polo de negócios da América Latina.
Além disso, ainda há o mercado on-line, em que há muita inovação e o Brasil tem forte tradição. Mas existem muitas outras possibilidades de inovar.

Como é a participação de estudantes brasileiros na IE?

O número de brasileiros cresce ano após ano. Temos aproximadamente 30 alunos em nossos programas. Também teremos cursos em São Paulo e Rio de Janeiro.
Estamos lançando um programa juntamente com o Insper, em São Paulo.
Também teremos um programa no Rio voltado para negócios familiares. Deverá ser antes da Copa, para atrair não apenas os donos, mas também investidores e experts nesse fenômeno.

Fonte: Jornal Folha de São Paulo

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