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Artigo – Uma crise de várias facetas: da greve à grave educação brasileira

Temos visto recentemente uma greve que se torna antiga na maioria das Universidades e Institutos Federais do Brasil. Os textos de ilustres professores como Nagib Nassar e Mozart Neves Ramos aparentam algumas contradições, mesmo que não tão relevantes para a questão central em foco. Mas essa moeda que é a educação tem mais de duas faces.

Numa delas há o governo federal, que vive num momento de crescimento econômico pífio se comparado a outros países do BRICS, mas razoável se comparado a países já de elevado desenvolvimento social e econômico. Outra face dessa moeda é a população brasileira que enfrenta há séculos uma estratificação social e cultural, que nem mesmo as cotas sociais irão resolver em décadas de esforço.

Aliás, as cotas étnicas são outro grande problema. No sul do Brasil há milhares de descendentes de europeus (alemães, poloneses, italianos) brancos que sofrem as arduras do trabalho semiescravo e agrícola de produção local. Há ainda no recôncavo baiano muitos afrodescendentes de elevado poder aquisitivo. As cotas sociais aplicadas num âmbito nacional já atingiriam uma resolução mais ampla, beneficiando a todos os brasileiros. Claro que não seria uma solução das perdas e falhas históricas, e não seria feita a justiça no grande sentido da palavra, mas evitaria um erro sobre outro. Portanto, o acúmulo econômico da elite econômica no Brasil foi tamanho que a elite intelectual não consegue diminuir essas distâncias desde o nascimento da República.

Se o emérito professor Nagib Nassar usa como comparação as universidades de Harvard e Stanford, ou mesmo Oxford e Cambridge, argumentando que os governos dão incentivos fiscais e ainda recebem doação de magnatas, não há motivos para entender os motivos de exigir isso nas universidades brasileiras. Ao contrário, há alguns anos um renomado ex-professor da Universidade de São Paulo chamou, como todos sabem, os professores federais de ‘preguiçosos’, para não usar uma palavra mais forte que foi empregada por aquele Presidente. Caso não estejamos cometendo alguma gafe, parece-me que aquele antigo comunista intelectual sabia o que falava, e também não queria agredir ou oferecer sua doce palavra a todos os professores.

A questão que se coloca é que há um PNES (Plano Nacional de Educação Superior) que pretendeu, com muita justiça, universalizar a educação universitária em troca do Reuni, ou seja, pretendeu diminuir o déficit historio que sempre privilegiou os detentores de capital para colaborar com a diminuição da desigualdade. Os EUA ou a Inglaterra, e não a Europa como citou o professor Nagib Nassar, são sociedades meritocráticas com um sistema capitalista já bem mais desenvolvido, no qual, bem provavelmente, nossos professores não sobreviveriam, pois não apresentam a produtividade necessária para lecionar nessas instituições. Todos nós sabemos que o ‘patológico’ período probatório oferecido pelo Estado brasileiro não existe nas instituições privadas do mundo anglo-saxão, e os professores de Harvard e do MIT, por exemplo, podem ser convidados com salários maiores para Columbia ou a UCLA. Os financiamentos e as fortunas acompanham a produtividade dessas universidades.

No Brasil, não estamos vendo professores lutando pela inclusão de cotas sociais, pois sua maioria chegou no atual cargo sem a desgraça do fardo histórico que acompanha a classe desfavorecida. Também não vemos professores lutando pelo aumento do salário mínimo, para permitir que alguns pobres atinjam um IDH maior, ou melhoria na estrutura universitária ou bônus de produtividade. Podemos continuar essa análise, anunciando que o salário médio de professores universitários no Brasil é, hoje, comparável a professores dos EUA e Europa. Um professor de nível A de uma universidade americana recebe em média 120 mil dólares anuais, algo que qualquer professor doutor brasileiro recebe, por vezes até mais. Isso ainda considerando que o nosso sistema previdenciário favorece os estatutários, ao contrário dos americanos e europeus que devem pensar em sua vida futura de outra forma, sem pensos por morte a maridos e esposas ou com 65 anos.

Também seria muito relevante se os professores, ou os sindicatos que os representam, lutassem por novas universidades ou um número maior de professores, ao invés de exigirem um aumento de salário. Mas números falam melhor? Entre os anos 1998 e 2008 o aumento da inflação foi entorno de 55%, enquanto o salário dos professores federais foi de mais de 100%. Isso não aconteceu com muitas classes funcionais no Brasil. Isso sem falar que quando o governo federal inicia um diálogo de produtividade e pesquisa, a maioria dos professores levanta a bandeira do absurdo, argumentando que pretendem privatizar a educação ou exigir quantidade de produção sem privilegiar a qualidade. Acredito que não estamos falando do departamento de filosofia da USP, que é reconhecidamente um colegiado produtivo e de elevado nível, no qual o corpo discente e docente apresentam elevados níveis de produtividade, juntamente com críticas construtivas a essa.

Outra face dessa moeda poligonal é a baixa produtividade dos docentes no Brasil. O estado de São Paulo, com suas duas principais universidades, a USP e a Unicamp, detém aproximadamente 65% da produtividade científica do Brasil, e nos perguntamos por quê? Vale ressaltar que a produtividade por docente na Unicamp é ainda maior que a USP, que lidera o ranking nacional com quase 50% da produtividade por ser também a maior e mais rica universidade da América Latina, possivelmente do hemisfério sul do mundo. Isso é uma nova faceta daquela dos financiamentos e bolsas de produtividade que muitos docentes ganham baseadas nos grupos de pesquisa, muitos enriquecidos com produtividades discentes numa sociedade que demonstra a busca pela sobrevivência e pela disputa.

A greve que vivemos e nos afeta a todos está prejudicando a sociedade brasileira, e também mundial, ou não vamos abrir os olhos para o fato de que a fartura de um existe graças à desgraça de outros? Porém, muito mais grave é a obsolescência que estamos presenciando nos hábitos sociais, e essa greve é apenas uma manifestação de uma crise social e cultural que vivemos, mas também política. Cada um luta pelo seu pão de cada dia, e o governo federal, flutuante na maioria de suas políticas, sem planejamento e pessoal capaz de pensar o futuro, não apresenta capacidade moral de exigir o fim das greves e impor uma agenda positiva de melhoria da educação brasileira.

Também há outra questão que se coloca sobre o aumento do orçamento da educação do Brasil, dos atuais 5,2% do PIB, o que não é nada trágico, para os 7,5% ou mesmo o absurdo de 10% do PIB até 2020. Ora, se o governo conseguisse investir todo esse dinheiro em educação, nossas universidades estariam flutuando em dinheiro sem conseguir aplicá-los eficientemente. O que fariam os reitores e departamentos? Enxeriam os laboratórios de pesquisa e material? Mas quem as faria? Financiariam viagens para apresentação das pesquisas no mundo todo? E o que isso mudaria na realidade nacional de massa pobre? Aumentaria o salário dos professores? Mas qual prioridade isso tem diante da miséria da ainda grande maioria da sociedade brasileira que consome em longos carnês celulares e televisões em lojas de crediário? Não seria mais justo aumentarem um real que seja do salário mínimo ao invés de aumentar o número de assessores parlamentares, os vultuosos salários do judiciário, e inclusive o salário dos professores federais que já beira os oito mil reais mensais líquido? Ou os filhos desses são mais importantes que aqueles filhos dos que já foram historicamente explorados nesse país?

As questões são muitas e devem ser repensadas abundantemente. O problema educacional brasileiro está inclusive na falta de educação que foi dada aos atuais professores das instituições superiores no Brasil, ao menos em sua maioria, que não apresentam a produtividade necessária num mundo globalizado em todas as formas.

Algumas outras perguntas se colocam: se vivêssemos num regime mais duro de governo, no qual pudéssemos demitir professores federais por falta de produtividade, como é nas universidades de Harvard, Stanford, Oxford, ou outras de países assumidamente liberais, qual seria a posição desses profissionais? Mas há outro problema: nessas sociedades, o mérito reina, e o catador de lixo possui um filho que estuda na mesma instituição do professor dessas renomadas universidades, com chances bem mais similares de ascenderem social e economicamente. Isso sem falar que os mais produtivos recebem bolsas integrais, ao contrário das universidades públicas brasileiras que já pagam caro pelos seus alunos.

Obviamente não estamos defendendo um liberalismo absoluto, mas há uma crítica sobre essa grave greve que estamos vivenciando no Brasil, na qual o foco das atenções não está no bem social, mas numa nova afirmação chantagista de uma classe já beneficiada. A bem da verdade, os estudantes perceberam isso, e entraram eles em greve contra todo esse absurdo dos professores, das esferas representativas dessas instituições e contra o governo; todos parecem não perceber a crise que se espalha. Mas o que se há de fazer? Os estudantes pretendem também sobreviver e ascender socialmente, consumir, melhorar de vida, e estão mais conscientes que aqueles que os educam. Estamos vendo uma completa falta de valores sociais e morais, num pequeno reflexo de nossa péssima elite intelectual, se é que temos uma.

Parece que chegaremos a um fim dessa greve dos professores, mas o que dizer dos funcionários? Sim, esses também não entraram na lista das reivindicações dos docentes. Os ilustres donos do saber não pensaram na sociedade, nos alunos, nos servidores, nas instituições: pensaram na diminuição de seus poderes de compra e consumo que foi afetado. Um dia desses, andando de avião para rever familiares vi alguém criticar a falta de postura de uma senhora humilde, que andava de avião pela primeira vez e sentia medo, quase delirava. Parece que quando um operário que chegou à presidência falou que o rico se incomodava em ver o pobre andar de avião é mesmo verdade. Lamentável.

Fellipe de Andrade Abreu e Lima é professor de Arquitetura e Urbanismo.

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