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Artigo – Uma contribuição para as Ciências do Mar

Inicialmente, gostaria de deixar claro que reconheço os inúmeros esforços que têm sido empreendidos pelas agências federais e estaduais de fomento a pesquisa e neste sentido o meu texto é uma contribuição discreta para o avanço das Ciências do Mar. Ressalto que os elementos motivadores para redigir esta pequena nota foram estimulados por situações recentes em nível internacional (Simpósio sobre Acidificação dos Oceanos) e nacional (Reunião na Academia Brasileira de Ciências, Edição Especial do Brazilian Journal of Biology e a aquisição de novo Navio Oceanográfico).

Nos Estados Unidos da América, entre 24 e 27 de setembro, aconteceu em Monterey- Califórnia o 3º Simpósio sobre Acidificação dos Oceanos, onde atuei no Comitê Organizador Internacional (http://www.highco2-iii.org/main.cfm?cid=2259) e também apresentei trabalho científico. O primeiro simpósio aconteceu em Paris 2004 com a participação de 125 pesquisadores e 24 palestrantes; em Mônaco 2008 com 227 participantes e 44 palestrantes; em Monterey 2012 tivemos a participação de 542 pesquisadores e 146 palestrantes, sendo 40% composto por pesquisadoras. Os trabalhos enviados foram provenientes de 37 países com destaque para Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Austrália, Japão, Noruega, Suécia, Índia, França e ainda tivemos muitos outros com participação discreta ou muito discreta como foi o caso do nosso país.

Os principais temas apresentados durante o simpósio podem ser resumidos, a saber: respostas de organismos, efeitos nos ecossistemas, química, observações e modelagem, métodos e modelos de estudos, sócio-economia, estudos paleoclimáticos e assuntos gerais. Os três primeiros itens corresponderam aproximadamente a 85% dos tópicos das pesquisas apresentadas durante o simpósio onde o agente de estresse ambiental é o aumento de dióxido de carbono sozinho ou combinado com aumento de temperatura ou limitação de luz ou de elementos essenciais como ferro, fósforo e nitrogênio. Enfim, a ciência nesta área do conhecimento transita em pontos fundamentais da estrutura e funcionamento dos ecossistemas marinhos diante do aumento do dióxido de carbono na atmosfera, seguido da acidificação dos oceanos.

O próximo evento será em 2016 e esperamos que o Brasil exiba uma participação mais expressiva do que a observada até o momento, principalmente porque possuímos uma longa extensão da nossa Plataforma Continental rica em carbonato e importantes ecossistemas (ex.: Abrolhos) que certamente estarão sendo afetados por estas transformações no meio ambiente marinho.

No Brasil, nos dias 2 e 3 de outubro, tivemos a realização de uma reunião científica na Academia Brasileira de Ciências, sob coordenação do professor Luiz Drude de Lacerda, onde foram tratadas as Inter-relações entre o Oceano e o Continente no Cenário de Mudanças Globais. Neste evento, contamos com palestras de vários pesquisadores de reconhecida competência na área de Ciências do Mar provenientes de várias instituições brasileiras. Outro ponto que também considero relevante foi a publicação de uma edição especial da revista Brazilian Journal of Biology sobre Biogeoquímica do Brasil e as Mudanças Climáticas (Artigos Disponíveis em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_issuetoc&pid=1519-698420120004&lng=en&nrm=iso). Aliás, esforços como estes, ou seja, reuniões temáticas seguidas de publicações científicas deveriam ser estimuladas pelas nossas agências de fomento, seja em nível federal ou estadual, pois geram inúmeros desdobramentos em cooperações científicas.

É realmente muito estimulante tratar intensivamente sobre o estado da arte, avanços da ciência nacional, identificar e propor novas abordagens sobre temas na fronteira do conhecimento científico. Vivemos um momento profícuo da Ciência Nacional, e eventos como estes podem gerar o diferencial desejado para o nosso país, ou seja, pesquisas com maior impacto científico e desenvolvimento de marcos conceituais.

O último ponto que destaco, neste momento, foi a divulgação da aquisição de um novo Navio Oceanográfico, totalmente equipado para estudos no mar, financiado pela Finep (http://www.finep.gov.br/imprensa/noticia.asp?cod_noticia=3030) por meio de acordo interministerial. Certamente, este é um desejo de toda comunidade que atua nas Ciências do Mar, e tenho certeza que este é um passo importante, mas precisamos de outras aquisições para atuar ao longo dos 8500 km de costa e 4,4 x 106 km2 que compõem o Mar Territorial Brasileiro, Zona Econômica Exclusive e a Extensão da Plataforma Continental Brasileira.

Em síntese, seria oportuno que tivéssemos programas científicos voltados para a saúde dos oceanos nas áreas de acidificação, zonas mortas, química marinha (ex.: marcadores paleoclimáticos e marcadores moleculares, poluentes orgânicos e inorgânicos) e metagenômica. Assim, aumentaríamos substancialmente as informações precisas sobre o Atlântico Sul e a capacidade brasileira de compreender e prever os impactos das mudanças climáticas nos ciclos biogeoquímicos e biológicos. Estas informações, sobretudo, constituiriam uma base fundamental para a elaboração de mapas temáticos sobre as mudanças químicas, geoquímicas e biogeoquímicas, eutrofização, acidificação e zonas mortas no Atlântico Sul. Isto certamente ampliará a nossa capacidade de gerenciamento dos recursos naturais nas áreas de jurisdição brasileira, principalmente porque precisamos ampliar rapidamente as áreas marinhas protegidas.

Fonte: Carlos Eduardo de Rezende é professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense, membro do INCT Transferência de Material na Interface Continente-Oceano e coordenador do Regional NODE for Latin America – Land Interaction Coastal Zones (LOICZ). Artigo enviado ao JC Email.

(Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do portal Consecti. O Consecti não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações)

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