+55 (61) 9 7400-2446

Artigos

Artigo – Startups desde o berço

Qualquer pessoa que deseje criar uma startup precisa decidir, antes de tudo, a que mercado pretende atingir –local, regional, mundial? É mais fácil se orientar ao mercado local, mas o mais promissor seria já começar tendo em mente o mercado mundial. Ao contrário do que se poderia imaginar, não há nada de impossível nesse desafio.

O programa governamental Startup Chile me ajudou a compreender que é possível conceber uma empresa mundial (ou, ao menos, internacional) já desde o primeiro momento. Lançada para dinamizar a inovação do Chile, um país geograficamente isolado, a iniciativa oferece US$ 40 mil a startups de todo o mundo, sob apenas duas condições, me explicou Horacio Mole, diretor do programa: “Que um dos fundadores venha morar no Chile durante seis meses [todas as atividades são em inglês] e que a ideia seja global, ou seja, que possa crescer facilmente (scalable)”.

Entre as centenas de startups convidadas (320 de 35 países, no primeiro ano da iniciativa), o exemplo mais ilustrativo é oferecido pela Jogabo.com, criada por Jeremy Melul e Mehdi Djabri. Consiste de uma rede social para organizar partidas de futebol entre amigos. Basta propor lugar e hora para que os interessados possam se inscrever. Quem deseja saber se há algo de especial planejado em sua localidade precisa apenas acionar o botão de pesquisa. A rede opera em Madri, Paris, São Paulo, Nova York e Hong Kong, entre outros locais.

Também me impressionei com um modelo semelhante, o Gidsy.com, criado por dois irmãos holandeses, ambos designers, e um programador austríaco, os três radicados em Berlim; a ideia deles integra um verdadeiro modelo de negócios, além disso.

A Gidsy.com permite encontrar todo tipo de atividade recreativa, seja na cidade em que alguém vive, seja em locais que vai visitar, de um curso de ioga a um passeio pelos museus mais conhecidos. “A ideia”, explicou Edial Dekker, um dos cofundadores da companhia, “consiste de propor coisas interessantes a fazer. Em lugar de sugerir lugares turísticos impessoais, propomos atividades”.

Por um lado, os organizadores oferecem cursos de culinária, passeios de avião ou, no caso de Barcelona, uma busca de vinhos, um tour por bares lésbicos ou uma visita aos mosaicos de Gaudí. Além da capital catalã, o Gidsy sugere programas em Nova York, Los Angeles, Ganda e Istambul, entre outras cidades.

O modelo de negócios é de uma simplicidade impecável: um organizador propõe uma atividade (a grupos que devem superar 50 pessoas mas sem se tornarem grandes demais). Os clientes interessados fazem reservas e pagam a Gidsy. A atividade é realizada. O organizador recebe seu dinheiro, menos os 10% de comissão da Gidsy.

A ideia é facilmente expansível a qualquer parte do mundo. O site funciona em inglês, como o Jogabo ou o Craigslist.org –site de classificados criado em San Francisco há 17 anos e hoje operacional em 700 cidades de 70 países (controlado por uma empresa sem fins lucrativos).

Não faltam empresas que poderiam se tornar globais de maneira simples.

Criada em Amã, Jordânia, a Zaitouneh.com oferece receitas de cozinha cujos componentes essenciais podem ser aprendidos em vídeos de menos de três minutos –excelente para quem quer aprender apenas os princípios básicos e improvisar. Durante o mês do ramadã, os vídeos são veiculados apenas em árabe, mas pelo restante do ano também são oferecidos em inglês.

“Os 20 cozinheiros que hoje me ajudam são em sua maioria jordanianos”, disse em outubro passado Fida Taher, a fundadora do site, no Cairo. “Mas o site não se limita a uma culinária específica. As pessoas querem novidade, receitas que não conheçam”.

Taher está determinada a estender o alcance de sua companhia o mais rápido possível. Basta oferecer uma narração “em off” em outros idiomas e oferecer algumas receitas novas, ou adaptadas a ingredientes disponíveis em outros lugares. Quanto ao modelo de negócios, “as receitas são uma plataforma de publicidade autêntica”, ela diz. “Basta veicular uma determinada marca de leite na preparação de uma sobremesa, por exemplo. O conteúdo também pode ter distribuição paga, porque o custo mais alto é o da produção dos vídeos. Dublá-los em outros idiomas custa pouco”.

A Waze.com talvez seja a mais ambiciosa dessas startups potencialmente mundiais, já desde a fundação. Trata-se, de acordo com Amir Shinar, um dos três cofundadores, de um “aplicativo social e móvel de navegação [em automóvel], ou melhor, de um aplicativo social e móvel para viajantes cotidianos entre o local de residência e o de trabalho (commuters)”. Os usuários só precisam baixar um aplicativo para seus celulares inteligentes para que o GPS registre na plataforma as rotas que percorrem (de modo a que novos mapas sejam preenchidos quando a pessoa procura caminhos alternativos) e a velocidade do percurso. Participar é fácil, e contribui para melhorar a informação disponível no sistema.

“Toda a informação provém da comunidade de ‘wazers'”, explica Shinar no escritório da empresa em Ra’anana, perto de Tel Aviv. “O algoritmo que desenvolvemos recolhe os dados e propõe as melhores alternativas de acordo com as condições de trânsito. Se a pessoa escolhe caminho diferente, o mapa é modificado e isso pode ajudar no próximo percurso, e servir a outros usuários”. O modelo de negócios depende de publicidade, o que é particularmente eficaz porque se vincula a locais transitados com frequência pelos usuários.

A Waze já conta com mais de 20 milhões de usuários; em junho, 1,8 milhão de novos assinantes baixaram o aplicativos. Seis meses atrás, seu total de usuários era de apenas 10 milhões. Alguns dos mapas –todos criados por usuários– são apenas esboços, como os da Arábia Saudita (onde o número de usuários é menor), enquanto outros estão praticamente completos –em Israel, Estados Unidos, Alemanha, África do Sul e Equador, por exemplo.

Criar uma startup com integração mundial é, portanto, tecnicamente possível e economicamente aconselhável (porque isso representa forte incentivo aos investidores). Indispensável, especialmente para as empresas jovens de países pequenos, que não podem depender do mercado interno para fazer fortuna (seja na Jordânia, Israel ou Holanda).

Há mais. O importante é compreender que, hoje, para bom número de tecnologias, é necessário ser global desde o berço, porque a maioria das empresas corre o risco de desaparecer antes de realizar seu verdadeiro potencial. Muitas das propostas que vemos surgir hoje são relativamente fáceis de copiar. Em um mundo onde os focos de inovação se multiplicam, a única maneira de garantir posição vantajosa –para que seja mais proveitoso uma associação do que uma cópia– está em obter o mais rápido possível uma fatia real do mercado mundial.

Francis Pisani viaja pelo mundo para descobrir o que está sendo feito de inovação tecnológica ao redor do planeta.

Fonte: Jornal Folha de São Paulo

Próximos Eventos