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Artigo – Once upon a time… Educação, ordem e progresso no Brasil

Estamos indo muito bem obrigado! Em nossa gloriosa e crescente ida ao “encontro” da ordem e do progresso, temos a nosso favor: (a) a 3ª posição entre os Brics, em termos de competitividade; (b) vencemos, mesmo que momentaneamente, o dragão da inflação com alardes de uma moeda forte e “intocável”; (c) a classe “C” e “D” estão indo ao paraíso das compras, sem as reais preocupações de quem realmente paga a conta; (d) temos uma audiência de massa com números de respeito pois, segundo o IBGE, 95,7% das casas brasileiras tem um aparelho de TV e, não obstante, nosso mercado de publicidade, na década passada, passou a movimentar mais de 10 bilhões dólares por ano, todos os anos e assim, só estamos atrás dos EUA e da Inglaterra no quesito criatividade em propaganda; (e) em junho de 2011, segundo a Anatel, chegamos a honrosa densidade “demográfica” de 111 celulares por 100 habitantes e de acordo com pesquisa realizada pelo Our Mobile Planet, o Brasil já superou os alemães no quesito uso de smartfones com cerca de 27 milhões de aparelhos em pleno uso e; (f) por último, e não menos importante, somos penta campeões no esporte bretão e fomos “agraciados” com a possibilidade de organizarmos uma copa do mundo e uma olimpíada, dentre outras honras gloriosas.

Na contra-marcha de todos esses e outros píncaros da nação verde e amarelo, temos: (a) 14 milhões de brasileiros sem saber ler nem escrever um simples bilhete para ser colocado na porta da geladeira recém comprada com a redução do IPI; (b)  Estamos na 53º colocação em Leitura e Ciências e 57º em Matemática de 65 posições na última avaliação do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês), ficando a frente de países como Kazaquistão, Tunísia, Indonésia, Albânia, Catar, Azerbaijão, Panamá, Peru e Quirguistão; (c) segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), dentre 38 países desenvolvidos e em desenvolvimento, o salário médio do docente do ensino fundamental em início de carreira no Brasil é o terceiro mais baixo do mundo, sendo que o salário anual médio de um professor na Argentina é cerca de US$ 9.857  e no Brasil US$ 4.818, já na Coreia, os professores primários ganham seis vezes o que ganha um professor no Brasil e; (d) mesmo com os suntuosos repassas do Fundeb, a escola ainda se apresenta como um local de esperanças e promessas, cercada por problemas sociais (drogas, repetência, evasão e violência), sendo colocada nas mãos de seus principais atores (alunos e professores) a responsabilidade de salvação do “sistema de educação”, pois não é incomum ouvir que ou é culpa dos professores que não ensinam “direito” (gostaria de saber o que seria essa “forma” correta de ensinar) ou dos alunos que não querem mais estudar (aprender, aqui separando as duas etapas que comumente são ligadas por um hífem, como sendo um processo de mão única e de exclusividade).

De outro modo, talvez a problemática na educação seja porque a escola já não é mais “atraente”, limpa, divertida, acessível, ou ainda, por ser opressora, ora rígida ao cobrar fardamento e respeito mútuo, ora flexível ao participar da política do “aqui se pode tudo e nada é proibido”. E assim seguimos no caminho inverso do desenvolvimento e da estabilidade econômica, com um país que não sabe valorizar os professores e mesmo estabelecendo, através de uma Lei Federal um piso nacional para educação, ainda temos o descumprimento do mesmo. Um país, estado ou prefeitura que não se empenha em organizar, investir e realmente valorizar sua estrutura educacional está fadado ao insucesso e não a uma ordem ou a algum progresso, mas é impossível negar que no quesito estruturação censitária do ensino avançamos e muito nas últimas décadas. Um ponto chave para que a educação possa se estruturar, dentre outros, sempre irá perpassar pela formação e valorização dos profissionais da educação (professores) e, por consequência, pela retomada de sua auto-estima e imagem perante a sociedade, afinal, quem na atualidade quer ser professor? Pergunte a um jovem e irá saber a cruel realidade.

Talvez, a pergunta seja ingênua em um país que paulatinamente picota o papel do professor perante a sociedade e por outro lado sustenta a ideia de que professores devem trabalhar por vocação e puro ímpeto messiânico para resolução dos problemas sociais, eclipsando seu papel como um profissional na educação. Esse discurso enfadonho e demagogo, em conjunto com toda falácia política do poder que emana da educação e do idealismo ingênuo na hora da escolha da profissão, reforça as amarras que impedem o despertar para uma educação de qualidade e embute questões de valores morais na prática docente (professores como mercenários capitalistas ao cobrar melhores remunerações). A educação básica vai perdendo aos poucos os professores que se qualificam, pois esses migram para outras esferas, que pagam um pouco mais. Talvez o melhor reflexo da nossa educação esteja nos diversos movimentos de reivindicação de direitos históricos adquiridos e descumpridos Brasil afora. As greves se estendem de Norte a Sul e de Leste a Oeste, e traduzem, no olhar ingênuo de um crítico, uma paralisia em termos de ações tanto dos que deveriam cumprir as Leis, quanto da própria sociedade civil que ainda não considera a educação como prioridade, e age com indiferença, ao contrário do que ocorre em breves paralisações do transporte, da segurança ou mesmo da saúde. Alguém já imaginou a segurança ou os transportes em greve por mais de 50 dias? E a educação?

De certo, a valorização salarial, sozinha, não pode comprar um bom sistema educativo (organização-ensino-aprendizagem), como bem destacou o relatório “Pisa in Focus”, quando demonstra que países onde foram investidos mais de US$ 100 mil por aluno obtiveram resultados semelhantes aos que investiram metade desses recursos, porém o relatório é categórico em afirmar que os países com melhores resultados nas provas de compreensão da leitura, matemática e ciências naturais são aqueles que mais investiram nos professores. No quesito educação, não conseguimos solucionar problemas que países como Coreia, Alemanha, Japão e China (todos arrasados por guerras e/ou revoltas sociais) conseguiram superar e aliado a um forte teor de nacionalismo e determinação reergueram-se se tornando referência em diversos indicadores internacionais. Não possuímos um contexto de P&D que favoreça nosso crescimento em C&T e/ou vice-versa, o que poderia vislumbrar novos horizontes em um mundo altamente competitivo e evitar estratagemas como a maré vermelha com seu disfarçado protecionismo econômico. Mesmo contrário ao que dizem muitos dos economistas, ainda somos um país agrário e necessitamos incondicionalmente de tecnologias vindas daqueles que obtiveram as melhores notas no PISA na área de ciências, como Xangai, Finlândia, Hong Kong, Cingapura e Japão. Nesse sentido, também não estamos indo bem.

Iremos aplicar para o deleite da população mundial e para orgulho da nação que possui a seleção canarinho, me perdoe a belíssima seleção de 82 pelo uso do termo, cerca de 500 mil reais para cada minuto de jogo realizado em um dos 12 estádios de futebol que estarão sendo reformados/construídos para a Copa de 2014, isso se cada um custasse 180 milhões com 4 jogos em cada, esse é um cálculo não condiz com o real pois, teremos obras que irão custar mais de 1 bilhão de reais. Talvez esses números combinem com a cara do novo Brasil e se percam nas repetidas, absurdas e contraditórias histórias brasileiras. O foco não é julgar nossa (in) competência para realização de eventos megalomaníacos e sim nossa falta de competência para transpor/concretizar planos em ações que estejam em prol, por exemplo, da educação e do crescimento da nação. Como outros países, estamos passíveis a cometer ações dicotomias, como sediar duas conferências mundiais que discutem os rumos da humanidade em relação ao meio ambiente e ao mesmo tempo estimular o consumo de automóveis que irão poluir a atmosfera, dentre outros danos.

A formação de um contribuinte consciente, um leitor e eleitor criíico, um consumidor que saiba equilibrar suas finanças e um(a) cidadão/cidadã que saiba o valor de seu papel na sociedade, dentre outras metas, circundam a finalidade da educação. Transita ainda, nesse sentido, o papel da educação como formação profissional e da educação não formal na construção de valores éticos e morais que, em conjunto, podem proporcionar a verdadeira revolução para a ordem e para o progresso.

Definitivamente, ainda não estamos plenamente indo ao encontro dessa ordem e desse progresso, e sim, talvez de encontro a ambos. Talvez, por ter seus frutos a longo prazo, a educação e por consequência o profissional em educação (professor), ainda não tenha sua devida importância colocada em prática e em foco como nas profissões imediatistas (médicos, engenheiros, advogados etc). Enfim, que ocorreram mudanças positivas nas últimas décadas, isso é inegável, mas o que não se pode negar é que a educação ainda é tratada como um local idealizado e de frutos perenes, e isso enclausura o País e, de outro modo, reforça as garras do atraso que não nos deixa alçar voos que estejam além de míseros acréscimos percentuais em índices educacionais e voluptuosos bateres de asas de uma galinha.

Artigo de Alex Vieira

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