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Artigo – O programa Ciência sem Fronteiras pode melhorar

O programa Ciência sem Fronteiras, lançado em 2001 pela presidente Dilma Rousseff, é analisado no artigo “Cem Mil Bolsas no Exterior”, publicado na revista “Interesse Nacional”, de São Paulo. O CsF, que visa multiplicar por quatro o número de bolsistas estudando a cada ano no exterior, é mais do que bem-vindo, dizem os quatro autores do artigo.

Mas a iniciativa, que pretende conceder em quatro anos 100 mil bolsas de estudos para alunos de graduação, pós-graduação, técnicos e professores, encontra dificuldades, como o despreparo em línguas estrangeiras. Também enfrenta desafios para aperfeiçoar os resultados e se tornar ainda melhor.
Assinam o texto Cláudio Moura Castro, economista e assessor da presidência do Grupo Positivo; Hélio Barros, ex-secretário de Educação Superior do MEC e ex-secretário da Ciência e Tecnologia do Ceará; James Ito-Adler, antropólogo e diretor-presidente da Cambridge Institute for Brazilian Studies, de Cambridge, Massachussetts (EUA) e Simon Schwartzmann, cientista político que preside o Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade no Rio de Janeiro.

“Tanto pelo seu tamanho como pela sua orientação, o programa Ciência sem Fronteiras pode significar uma virada importante para a educação superior e a ciência e a tecnologia”, assinalam os autores. Eles consideram ainda que “o fato de ser programa implantado ‘de cima para baixo’ pela Presidência da República, ao mesmo tempo que lhe dá força e visibilidade, traz também riscos importantes”.
Riscos institucionais são apontados. “Decisões de alto nível e negociações intergovernamentais só são bem-sucedidas quando se institucionalizam em agências capazes de acumular experiências ao longo do tempo e contar com o apoio e a participação dos setores da sociedade com os quais trabalham. A história da Capes e do CNPq mostra que sabem como trabalhar de forma individualizada com professores universitários de pós-graduação e cientistas, mas sabem muito menos como operar em grande escala e trabalhar com o setor empresarial e com cursos de formação geral”, afirmam.

Cerca de 75 mil bolsas serão proporcionadas pelo governo e mais 26 mil por empresas privadas. O CsF também pretende atrais pesquisadores do exterior para trabalhar no Brasil e trazer brasileiros formados no exterior que queiram retornar ao país. As grandes novidades do programa, que terá investimento de R$ 3,2 milhões pelo governo, observada no artigo, é a ênfase em bolsas de graduação, a formação técnica, com a participação do setor privado.
“O PsF é uma iniciativa da presidente Dilma Rousseff, que convocou a Capes e o CNPq para gerenciá-lo. O envolvimento pessoal da presidente, ao mesmo tempo em que eleva o status do programa e garante a existência de recursos, gera um desafio, pela urgência imposta”, observam. “Apesar do otimismo, as agências revelam temor, pela dimensão e pelas dificuldades decorrentes das novas modalidades de bolsas e pelo baixo conhecimento em línguas estrangeiras dos estudantes brasileiros”, acrescentam.
             Doutorado        Doutorado    Pós-             Graduação Estágio     Jovem Cientista de   Pesquisador
              sanduíche        pleno no       doutorado    sanduíche Sênior no   de grande talento    Visitante especial
              no exterior       exterior        no exterior  no exterior   exterior    (no Brasil)                   (no Brasil)                                Total
Ano
2009         1.910                  783                             1.067            -­                   -­                   -­                             -­                                            3.760
2011         2.700                    390              1.240               600             2.100               200                             60                                            7.290
2012         5.000                 2.300              2.120            3.100             3.500               220                           100                                           16.340
2013         7.600                 2.900              2.600            3.900             5.100               220                           110                                           22.430
2014         9.300                 4.200              3.600            4.700             6.800               220                           120                                           28.940
Total
PsF           24.600              9.790              9.560           12.300          17.500               860                           390                                          75.000
O quadro acima não inclui as 26 mil bolsas a serem proporcionadas pelo setor empresarial, que serão administradas pela Capes e CNPq, com um plano de trabalho de cada empresa. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) dará 6,5 mil bolsas; a Confederação Nacional da Indústria (CNI) 6 mil; a Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB), 5 mil; Petrobras, 5 mil; Eletrobrás, 2,5 mil; Vale, 1 mil; British Gas/BG, 450 bolsas e
SAAB, 100 bolsas.
“Falta muito por esclarecer sobre como será a parte empresarial do programa, responsável por um quarto das bolsas previstas”, observam os autores. Segundo eles, as instituições que aparecem até agora como financiadoras podem ter, simplesmente, respondido a um apelo presidencial, ao qual não poderiam se furtar. “No entanto, falta quem se envolvam no processo de seleção de bolsistas e no estabelecimento de parceria com outras empresas no exterior”, assinalam.

“Visto em seu conjunto, o programa Ciência sem Fronteiras parece ter seu resultado assegurado na linha mais tradicional, de ampliação da formação de alto nível no exterior. Não obstante, há dúvidas cada vez maiores na medida em que nos afastamos deste núcleo duro e entramos nas áreas prioritárias, mas mais incertas, dos estágios de curta duração e da formação técnica e profissional. É sobretudo, nessas áreas que o programa precisa se fortalecer”, diz o artigo.
Nos anos 2010-2011, estudavam nos Estados Unidos 8.777 estudantes  brasileiros, segundo o Instituto of International Edication (IIE), citado pelo autores. No biênio, havia nos EUA 158 mil alunos da China, 104 mil da Índia; 73 mil da Coreia e 13 mil do México.
O artigo defende a inclusão de bolsas de mestrado em áreas pouco desenvolvidas no Brasil, antes financiadas pela Capes e CNPq. “Isso pode ser um equívoco, que se explica, talvez, pelo entendimento diferente sobre o que são os mestrados no Brasil e no exterior. No Brasil, os mestrados tendem a ser vistos como primeiro passo de uma formação acadêmica que culmina com o doutorado”.
“Nos Estados Unidos e na Europa – continua o artigo -, os mestrados, cada vez mais, são uma alternativa de formação profissional, fortemente orientada para o mercado de trabalho”. Os autores recomendam que, “dadas as intenções do programa, seria importante um espaço razoável para mestrados profissionais, pois os doutorados são programas para a docência e a pesquisa”.
Os autores observam ainda que uma parte muito significativa das bolsas seria a da formação tecnológica, para a qual o financiamento de empresas parece se justificar. Todavia, consideram que neste ponto o CsF é pouco claro. “Sem discutir como as bolsas poderão servir diretamente à pesquisa e desenvolvimento (P&D) empresarial, no momento, preferimos nos limitar à simples questão dos cursos tecnológicos. A formação tecnológica no Brasil, de dois anos de duração, se desenvolveu muito pouco, ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, onde os cursos de dois anos dos Community Colleges (que dão o título de “associate”) formam mais que a graduação clássica. O papel do parceiro americano, principalmente no que se refere à graduação, será decisivo para que o CSF consiga bons resultados”, recomendam.
O artigo aponta ainda a exclusão das Ciências Sociais no programa. “Outra diferença entre os programas anteriores e o atual é que o CSF não inclui as Ciências Sociais e Humanidades que, nos programas tradicionais, correspondiam a cerca de 25% das bolsas (714 nas ciências humanas, 401 em ciências sociais aplicadas e 299 em letras e artes, em 2009)”. Afirmam, porém, que “a ênfase nos campos STEM (Science,Technology, Engineering and Mathematics) faz sentido, pois as carências brasileiras são bem conhecidas”.
No entanto – enfatizam os autores -, “devemos nos lembrar que as outras áreas também têm carências, além do arguído fundamento básico na formação geral dos estudantes – que precisam conhecer a cultura e a sociedade em que vivem. De fato, existem lacunas importantes nos campos do direito (patentes, legislação antitruste e mercado de capitais para inovação), governança, empreendedorismo, política econômica, política urbana, política educacional e política cultural”, constatam.
“Uma coisa é dar ênfase a uma área. Outra é asfixiar a gama mais ampla de tudo mais que pode ser útil ao desenvolvimento nacional”. Segundo os autores, por isso, assegurar que os programas regulares de bolsas no exterior serão mantidos é fundamental para o próprio sucesso do CSF.
Fonte: Blog Flamínio Araripe

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