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Artigo – O novo projeto nuclear brasileiro

Duas peças do quebra-cabeças atômico no qual o Brasil vai se envolvendo:

1. Em 4 de junho, véspera do Dia Mundial do Meio Ambiente, o presidente da Eletronuclear disse na Câmara dos Deputados que bancos estrangeiros desistiram de financiar com 1,2 bilhão de euros a construção da usina nuclear Angra 3, iniciada em 2010 e, orçada em cerca de 3,7 bilhões de euros (a desistência se deveu, provavelmente, à péssima repercussão que o financiamento teria após o desastre nuclear de Fukushima). O dinheiro, agora, viria do Tesouro Nacional (o que significa mais dívida) e seria emprestado pelo BNDES, que bancaria 90% do projeto;

2. Em Itaguaí (RJ), a Marinha contratou sem licitação a Odebrecht para construir um estaleiro e uma base naval. De lá sairão, pelo menos, quatro submarinos convencionais e o casco do submarino de propulsão nuclear. O projeto de 6,7 bilhões de euros integra a aliança militar estratégica entre Brasil e França, que repassará a tecnologia militar. A contratação da Odebrecht Defesa e Tecnologia (subsidiária recém criada pela empreiteira), criticada pelo TCU, foi feita pela estatal francesa DCNS, que opera a transferência de tecnologia. Para viabilizar a indústria bélica nacional, o governo abriu a caixinha de bondades e aprovou em março a Lei 12.958, que desonera e subsidia o setor e já atraiu Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez, Engevix, Embraer, Synergy e Camargo Corrêa .

Soltas, as peças deste quebra cabeça dizem pouco. Juntas, evidenciam que o Brasil voltou a ter um projeto atômico, embora o governo se esforce para que pouca gente saiba disso e a Constituição proíba o desenvolvimento de armas nucleares. Tecnologias de produção de energia atômica e de armas nucleares necessariamente são duas faces da mesma moeda.

Justificativas técnicas para as duas iniciativas não faltam. Aquelas que assanham os defensores do Brasil potência seriam a carência de energia para sustentar o crescimento econômico e a necessidade de patrulhar áreas distantes da costa, onde estariam o pré-sal.

Por trás de ambas se encontra a tara do Itamaraty pelo assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, que supostamente requereria uma indústria bélica de porte. E, aí, misturam-se também os interesses de militares que operam verbas gordas e corporações de base nacional que planejam ganhar músculos para disputar o mercado internacional de defesa que alcança 1,5 trilhões anuais.

Fonte: Blog do Noblat. Escrito por Carlos Tautz, jornalista, é coordenador do Instituto Mais Democracia –Transparência e Controle Cidadão Sobre Governos e Empresas.

(A equipe do Consecti esclarece que o conteúdo e opiniões expressas nos artigos assinados são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do portal.)

 

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