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Artigo – O aprendizado e o desenvolvimento

De sites de notícias a conversas em torno da mesa de jantar, um tópico pareceu ser uma insaciável fonte de discussões no início de dezembro, quando a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou os resultados do Pisa 2012 (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes). E ficou no ar uma pergunta: deveríamos nós – economistas e autoridades governamentais – preocupar-nos com os resultados do Pisa? E, mais importante, o que esses resultados podem nos dizer sobre o presente e também sobre o mundo que virá?

Há muito tempo já foi reconhecida a importância de investir em educação para estimular o desenvolvimento de um país. Após décadas de reconhecimento sobre o papel fundamental da educação, ela tornou-se consagrada como uma prioridade mundial nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.

Além de ter uma influência decisiva sobre a renda de uma pessoa, a educação desempenha um papel central na explicação das diferenças entre os países em termos agregados: a educação incrementa o capital humano inerente à força de trabalho, o que aumenta a produtividade do trabalho e resulta em um nível mais elevado do equilíbrio da produção (Mankiw, Romer e Weil, 1992). A educação também aumenta a capacidade de inovar no âmbito da economia, acelerando a adoção de novas tecnologias, promovendo, assim, o crescimento (Lucas; 1988).

Quando essas previsões teóricas são testadas contra dados históricos, a educação é geralmente definida como a medida quantitativa de anos de escolaridade, em termos de média em toda a força de trabalho. No entanto, avaliando as realidades, é justo pensar que um ano de estudo na Etiópia é equivalente a um ano de estudo na Finlândia? Uma vez que grande parte das pesquisas concentraram-se nas medidas de escolaridade sem considerar as diferenças de realidade, os resultados das comparações empíricas entre países resultam prejudicadas. Empregando um amplo conjunto de testes internacionais para medir os êxitos dos alunos, Barro (2001) conclui que, embora tanto a quantidade como a qualidade da educação seja relevante para o crescimento econômico, a qualidade é muito mais importante. Barro conclui que, quando a qualidade da educação é levada em conta, cresce substancialmente a margem de variação entre países e dos níveis de desenvolvimento econômico.

Esse resultado explica porque não conseguimos ver mudanças adequadas nas condições econômicas. A situação atual nos países em desenvolvimento é muito pior do que geralmente retratada com base apenas no número de matrículas escolares e êxito dos alunos. Embora as matrículas no ensino primário em regiões em desenvolvimento tenham chegado a 90% em 2010, acima dos 82% registrados em 1999, ainda hoje mais de 125 milhões de jovens em todo o mundo não dominam habilidades básicas de leitura e redação, das quais 61% são jovens mulheres. Além disso, muitas crianças concluem a escola primária tendo adquirido muito poucas habilidades produtivas. Parece que muitas vezes esquecemos que a educação não é um objetivo em si mesmo, mas um meio de alcançar um conjunto mais amplo de objetivos.

Isso ressalta o fato de que a qualidade da educação de uma pessoa é de suma importância e não há dúvida de que o futuro do desenvolvimento tecnológico só fará crescer ainda mais o valor de uma educação de boa qualidade. E é por isso que os testes Pisa são tão importantes. Coordenado pela OCDE, o Pisa mensura as habilidades dos estudantes de 15 anos de idade em termos de leitura, matemática, conhecimento científico e solução de problemas. Realizado a cada três anos e envolvendo mais de meio milhão de estudantes em 65 países, o Pisa continua sendo a pesquisa mundial mais completa na mensuração comparativa da qualidade da educação em diferentes países. Neste ano, o foco foi em matemática, uma vez que o domínio da matemática parece ser um bom indicador para prevermos participação em cursos pós-secundários e rendas futuras mais altas. Mais uma vez, os tigres asiáticos, tendo à frente Xangai, China e Cingapura, dominaram em conhecimentos de matemática.

Não surpreendentemente, as comparações de resultados do Pisa entre diferentes países são utilizadas como instrumentos de politização dentro dos países. Mas acima de tudo, temos de perceber que, embora haja um crescente consenso de que a escolaridade deve concentrar-se mais na qualidade do que quantidade, há menos consenso quanto à forma de conseguir isso. Alguns veem o problema como resultado de financiamento insuficiente, enquanto outros gostariam de ver as escolas incentivarem alunos, funcionários e professores. Os pesquisadores do Pisa veem um foco em ambos como frutíferos. Eles enfatizam que, para todos os países, focar mais recursos nos estudantes menos privilegiados é uma forma eficaz de melhorar as notas, e eles observam que os países com melhores desempenhos, especialmente na Ásia, colocam ênfase na seleção e treinamento de professores, priorizando investimentos em capital humano de professores, em detrimento de ampliar o número de alunos por sala de aula.

Nessa linha, a atual ausência de incentivos na maioria dos sistemas educacionais é estranha. Há muito tempo já percebemos que a melhor maneira de produzir de tudo – de televisores a aplicativos para celulares a vacinas – é oferecer incentivos adequados. No entanto, de alguma forma, deixamos de aplicar a mesma visão ao nosso bem mais precioso, a educação de nossos filhos.

Seja qual for a maneira de aperfeiçoar nossos sistema educacionais, é claro que devemos fazê-lo. E quando contemplamos as maneiras de melhorar nossos próprios sistemas, que melhor maneira de aprender do que olhar ao redor do mundo para ver como outros sistemas brilham ou falham? (Tradução de Sergio Blum)

Morten Olsen é professor de Economia na IESE Business School,

Ria Ivandic é assistente de pesquisa na IESE Business School.

Fonte: Valor

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