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Artigo – Espetáculos de Inovação

Os vínculos entre a tecnologia e as artes são facilmente perceptíveis. Nossos ancestrais dominaram o fogo por meio do entrechoque de pedras e, também assim, podem ter descoberto que diferentes pedras produzem sons diversos. Este talvez tenha sido o início de um processo de inovação que avançou até a complexidade de um piano ou mesmo à música eletrônica.

Os avanços tecnológicos permitiram a João Gilberto cantar no limite do silêncio. Nelson Motta, no livro “Noites Tropicais – Solos, improvisos e memórias musicais”, ao falar sobre João Gilberto e Chet Baker, escreveu que “a tecnologia os libertava da tirania da força vocal e do volume… Com eles, a música saía menos dos pulmões e mais do coração. Eles eram radicalmente tecnológicos: não existiriam sem o microfone. Nem nós sem eles”.

Essas relações óbvias ainda não significaram a conquista de espaços capazes de intensificar, dentro dos muros das escolas e universidades, os estímulos à inovação tecnológica e a formação de pessoal associadas a essas áreas. O processo que intensifica a tecnologização das artes, particularmente dos espetáculos, resulta na necessidade de desenvolvimento de novas especializações profissionais. Além da pertinência, é fácil perceber que esse campo tecnológico pode ser categorizado em termos conceituais e metodológicos, condição para integrar a academia nas suas indispensáveis funções de produção e reprodução (ensino e pesquisa) de conhecimento, bem como no desafio da extensão inovadora.

Nesse assunto, temos ainda, em alguma medida, o paradoxo descrito num discurso do Marechal Casimiro Montenegro Filho, criador do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), sobre a falta de engenheiros no Brasil de 1954: “essa falta… reflete, em parte, a procura insuficiente, dada a circunstância de que a conveniência da utilização de engenheiros para melhorar a eficiência nem sempre é reconhecida…”.

As universidades brasileiras possuem grandes escolas de teatro, cinema, dança e música, mas tais sistemas ainda não são apoiados na intensidade necessária pelos setores tecnológicos. É difícil de ser interpretada a distância que o sistema de educação brasileiro guarda desses processos de inovação. Dizemos isso dada a sua relevância e, mais importante ainda, às suas contribuições futuras para a organização socioeconômica do Brasil. Os vigorosos programas de expansão das universidades e do ensino técnico do governo federal na última década ainda passam distantes desse debate. O mesmo se pode falar de diversos programas de educação tecnológica dos estados.

Em eventos diversos, é comum, interlocutores usarem o carnaval como exemplo da capacidade de mobilização do povo brasileiro. A questão aparece inclusive em atividades sobre tecnologia e inovação. Mas será que o carnaval é um bom exemplo apenas nesse item? Seguramente, não! É possível perceber as escolas de samba e os bumbás de Parintins com dimensões de empresas de bases tecnológicas? E, falando em carnaval, como serão, no futuro, os trios elétricos? Esta invenção – um diferencial da Bahia no mercado de festas mundiais – possui verdadeiras gerações que determinam tendências. No Cirque Du Soleil, o desempenho estonteante do seu elenco se viabiliza, muitas vezes, por uma surpreendente invenção de equipamentos capazes de permitir, em cada cena, sensações arrebatadoras ao público. Em todos os casos, a produção de espetáculos tem quase sempre como rotina a busca permanente por novos paradigmas tecnológicos que desafiam trajetórias anteriores já testadas em todos os campos da cenotécnica e da engenharia de espetáculo.

Os artistas e a indústria do entretenimento fomentam e organizam, cada vez mais, grandes, médios e pequenos espetáculos teatrais, musicais, cinematográficos, circenses, entre outros. Nos lugares mais recônditos do País, as populações reivindicam o acesso a bens culturais e artísticos. Já é hora de ampliarmos os espaços garantidos pelas instituições formadoras a essas demandas. Assim, a cultura brasileira terá os aportes tecnológicos necessários ao seu desenvolvimento e às expectativas que se elevam. Temos muitas vantagens comparativas no mercado mundial (agronegócio, aviação, mineração, carbono, biodiversidade, água, energia etc.). Dentre elas, não podemos nos esquecer da nossa capacidade de emocionar e humanizar o mundo.

Fonte: Gabriel Soledade Nacif é reitor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Artigo publicado no jornal A Tarde.

(Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do portal Consecti. O Consecti não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações)

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