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Artigo – Colégios universitários no Brasil

O modelo paulista de cotas universitárias é bom?

SIM

Em entrevista recente (“Veja”, em 22/12/2012), Eunice Durham critica a proposta de cotas nas universidades estaduais paulistas, mas considera que a adoção de um modelo “college” “seria uma proposta revolucionária para o ensino superior brasileiro”. Editorial daFolha (em 29/12/2012) declara: “A ideia [do ‘college’] é a inovação mais promissora da proposta paulista”.

Nos EUA, “junior colleges” são realidade desde 1899 e “community colleges” começam a ser difundidos a partir de 1940. No Canadá francês, “collèges d’enseignement général” de dois anos, obrigatórios para quem postula vagas nas universidades públicas, funcionam desde 1967.

Na Escandinávia, “högskolen” existem desde 1970, oferecendo um diploma de Educação Geral Superior. Essa variante foi incorporada ao Processo de Bolonha em 2004, com a denominação de “short cycle higher education”. Em todos esses casos, com mais um/dois anos, o aluno se gradua como “Bachelor of Arts ou Sciences”, requisito necessário para entrada em carreiras profissionais nas universidades.

Alguns países latino-americanos já adotam o modelo. Na Argentina, a lei da educação superior prevê colégios universitários desde 1995. A Venezuela, com a Universidad Bolivariana, desde 2003 criou uma rede de “aldeas universitarias” (sigla Aldeas: Ambientes Locales de Desarrollo Educacional Alternativo Socialista) em 334 municípios.

Em Cuba, desde 2005, “Sedes Universitarias Municipales” (SUM) garantem acesso universal ao primeiro ciclo de formação no sistema universitário. O modelo pedagógico adotado combina modalidades eficientes de educação à distância (apesar da baixa densidade tecnológica) com avaliações presenciais.

No Brasil, ciclos iniciais de formação geral foram adotados nas universidades do Distrito Federal (1935) e de Brasília (1961), sendo, em ambas as oportunidades, objeto de dura repressão política. O conceito de Colégio Universitário, no formato idealizado por Anísio Teixeira na década de 1950, valorizou a pauta do projeto de Reforma Universitária da UNE, em 1963.

Na fase atual, a Universidade Federal do ABC (UFABC) abriu em 2007, adotando o regime de ciclos como entrada única na área de ciência e tecnologia. Na Universidade Federal da Bahia (UFBA), a partir de 2008, abriram-se bacharelados interdisciplinares em todas as áreas de formação.

Em 2009, a Universidade Federal do Oeste do Pará adotou entrada única num ciclo básico sem certificação intermediária, prévio à definição da carreira profissional.

Em 2010, a Unicamp iniciou o Programa de Formação Interdisciplinar Superior (Profis), ciclo curto de dois anos destinado aos estudantes da rede pública da região de Campinas, prévio à formação profissional em segundo ciclo e titulação como curso sequencial.

O Conselho Nacional de Educação aprovou, em 2011, referenciais curriculares do bacharelado interdisciplinar e similares, equivalente brasileiro ao modelo “college”.

Hoje, mais de 11 mil vagas são oferecidas em cursos de primeiro ciclo, em 17 universidades brasileiras, incluindo algumas no Estado de São Paulo. A nova Universidade Federal do Sul da Bahia vai ter entrada única pelos bacharelados interdisciplinares, com 5.000 vagas em colégios universitários instalados em 32 municípios.

Nesse contexto, a proposta do governo paulista mostra-se até tímida, ao oferecer apenas 2.000 vagas em colégios universitários, e, além disso, é segregacionista, ao propor regime de ciclos apenas para pobres, negros e indígenas. Contudo, espero que os conselhos universitários de Unicamp, Unesp e USP aprovem o modelo proposto e torço para que ampliem sua aplicação a todos os cursos e segmentos sociais.

Assim, as estaduais paulistas reforçarão o time de universidades brasileiras que já adotam modelos curriculares compatíveis com a vanguarda acadêmica mundial.

NAOMAR DE ALMEIDA FILHO, 60, pesquisador 1-A do CNPq, é coordenador da Comissão de Implantação da Universidade Federal do Sul da Bahia

Fonte: Jornal Folha de São Paulo

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