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Artigo – A inovação tecnológica, por si só, não muda o mundo

Em geral, “otimismo” e “realismo” são usados para descrever duas maneiras diferentes de encarar a vida. Mas acredito que uma avaliação realista da condição humana torne obrigatório encarar o mundo com otimismo.

Mesmo assim, existe uma área na tecnologia na qual a experiência moderou meu otimismo: a ideia de que os celulares revolucionariam os países em desenvolvimento.

Uma década atrás, muita gente acreditava que a proliferação de aparelhos móveis na África significaria um caminho mais curto para o acesso ao poder digital. Não foi o que aconteceu. A simples existência da tecnologia não muda de imediato a forma pela qual as pessoas atendem às suas necessidades.

Agora, depois de anos de investimento, esse ganho de poder digital está em curso, graças a uma confluência de fatores que incluem a crescente cobertura das redes, aparelhos mais potentes e maior gama de aplicativos.

Com o tempo, chegaremos ao ponto de inflexão no qual o benefício de prover digitalmente serviços bancários e de saúde vai superar o custo.

Já houve diversos programas-piloto que conquistaram sucesso com o uso de celulares em pequena escala. Mas exemplos de programas em larga escala e sustentáveis são ainda bastante raros.

Serviços de saúde acionados digitalmente, ou “mSaúde”, são uma área na qual o desenvolvimento vem sendo lento, porque é difícil criar uma plataforma de excelente qualidade e depois convencer os agentes de um sistema de saúde a utilizá-la.

Se alguns trabalhadores da saúde usarem celulares para transmitir informações a um banco de dados central, mas outros não virem o valor da prática, o sistema digital ficará incompleto –e apresentará as mesmas falhas que o atual sistema em papel.

O mais promissor dos projetos de “mSaúde” que vi se chama Motech e tem como foco a saúde de mães e crianças em Gana. Profissionais de saúde com celulares visitam as aldeias e criam formulários digitais com informações vitais sobre mulheres em início de gestação.

O sistema em seguida envia mensagens de saúde às mulheres grávidas, tais como lembretes semanais sobre as melhores práticas pré-natais. Também envia informações ao Ministério da Saúde, o que oferece um quadro preciso e detalhado sobre as condições de saúde no país.

As pessoas que trabalham no combate a Aids, tuberculose e malária –e com planejamento familiar, nutrição e outras questões mundiais de saúde– poderiam usar a mesma plataforma, para que todas as partes do sistema de saúde de um país troquem informações e respondam apropriadamente em tempo real.

Esse é o sonho, mas só funcionará se os trabalhadores que estão na linha de frente inserirem os dados, se os ministérios de saúde agirem quanto a eles, e se os pacientes utilizarem as informações recebidas em seus celulares.

Compreendi que as coisas estavam decolando quando nossos parceiros na Motech começaram a falar sobre o peso dos custos de rede e sobre simplificar a interface.

O aplicativo deles estava realmente sendo usado em campo, e desafios mais sérios estavam surgindo -o que queria dizer que o sistema era valioso o bastante para que as pessoas quisessem solucionar os problemas, em lugar de simplesmente voltar ao sistema antigo. Essa abordagem digital agora está sendo estendida a outras regiões, como o norte da Índia.

Uma década atrás, as pessoas diziam que isso aconteceria rapidamente. Não foi o caso, porque as peças simplesmente não estavam disponíveis. Agora, começam a se encaixar. Será preciso uma década para disseminar aplicativos, mas o ímpeto vai aumentar e aprenderemos com as nossas experiências.

Chegará o dia em que as pessoas, equipadas com recursos digitais, usarão a tecnologia para inovar em seu benefício, criando soluções que o setor de software jamais terá considerado.

BILL GATES é fundador da Microsoft e co-presidente da Fundação Bill e Melinda Gates.

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