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Ambiente e tecnologia mudaram os navegadores, diz Amyr Klink

O único explorador até hoje capaz de remar sozinho da África ao Brasil comemora em 18 de setembro os 30 anos de seu desembarque na Bahia. A reflexão que Amyr Klink, 59, oferece agora é a de que a experiência de navegar o mundo se tornou diferente: facilitada pela tecnologia, mas dificultada por mudanças ambientais e pelo sumiço dos espíritos solidários do radioamadorismo.

Depois de contar a viagem no livro “Cem dias entre céu e mar”, Klink diz que esperava ver “dezenas” de outros navegadores repetindo o feito. Até agora, ninguém o fez, mas há três remadores dispostos a tentar em 2015.

Em depoimento à Folha embaixo do domo que construiu em sua casa, em Moema, o navegador fala sobre o que passa por sua cabeça três décadas após sua canoa I.A.T. aportar em Camaçari (BA).

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30 anos no mar
Cinco anos depois da viagem desse barquinho, eu fiz a primeira viagem para a Antártica e não parei mais. (…) Estou surpreso, porque achei que aos 40 ou 50 anos eu já estaria morto. Fisicamente, me sinto bem. Não tenho nenhuma restrição. (…) Imaginei que haveria dezenas de travessias por ano [feitas por outros remadores], mas por alguma razão não aconteceu. O brasileiro gosta de praia. Já de mar…

Radioamadorismo
Naquela época não tinha navegação de precisão, previsões meteorológicas eram altamente precárias, mas já existia o radioamadorismo. Eu falava com meia dúzia de radioamadores, mas tinha dezenas de milhares no mundo todo me acompanhando. Na época o radioamadorismo talvez estivesse no seu auge. (…) Por incrível que pareça, o mundo ficou um pouco mais solitário. Hoje você é um indivíduo isolado. Ninguém quer saber onde você está. Esse espírito de solidariedade está de certa forma se esvaindo.

Aquecimento global
O aquecimento a gente percebe na Antártica. Percebemos o recuo de geleiras, o aumento do número de grandes gelos em alto mar -um sinal de que as geleiras estão despejando mais icebergs tabulares.

Buraco na camada de ozônio
O que mais me impressionou foi o aumento do ultravioleta. A gente sente na pele hoje. Há 20 anos, na Antártica, a gente passava uma temporada inteira tirando a camisa em dias de sol, ou pelado. Hoje, se você fica 30 minutos sem camisa lá você vai para uma UTI.

Vendavais
A segunda mudança visível em termos climáticos para quem vai regularmente para essas regiões extremas é a média de ventos. Antigamente, as pessoas falavam em tempestades terríveis com ventos de 45 nós. Hoje em dia a gente pega ventos de 80 ou 90 nós. No ano retrasado, estávamos com as crianças lá e pegamos 110 nós [200 km/h].

GPS
Em 1984, não existia GPS. Ele começou do meio para o fim dos anos 1980. Quando fiz a primeira viagem [em grupo] para a Antártica, em 1986, a gente usava navegadores por satélite que tinham imprecisão enorme. O primeiro aparelho acessível ao grande público apareceu em 1989, mais ou menos, quando fiz a primeira descida sozinho para a Antártica. Era uma coisa tão maravilhosa que eu botava o aparelho numa caixinha de veludo e abria uma vez ao dia.

Meteorologia
O que facilitaria muito hoje [uma nova travessia] é a facilidade de se obter dados confiáveis de meteorologia. (…) A gente tem hoje modelos matemáticos com dados da NOAA [agência atmosférica dos EUA] que dão previsões de até 72 horas com precisão dramática. (…) O problema é que a turma está abusando. A francesada desce para a Antártica hoje em barcos amarrados com arame, completamente despreparados e de forma precária. A chance de ter um acidente é grande.

Novos remadores
Alguns estão se mirando na minha travessia para se prepararem [para cruzar o Atlântico Sul]. Alguns não. Esse americano, Victor Mooney, não conhecia a minha experiência até três anos atrás. O barco dele foi projetado no Brasil, e acho que o projeto é péssimo. Tem outro cara [Caetano Altafin] que ainda está projetando o barco e outro [Angelo Corso] que já está construindo. Eu acho que ele vai ser bem-sucedido, porque é um cara dedicado.

À deriva
Ele [Corso] tem um bom projeto. Uma boa mistura entre a tecnologia e design avançado, mas com as propriedades funcionais de um barco à deriva. Em mais da metade do tempo [na hora do remador dormir e descansar], o barco é um casco a deriva. (…) O cara que faz um barco para navegar, apenas, vai fazer o projeto errado.

A construção do domo
É uma brincadeira. Hoje existe uma legião pelo mundo de adoradores da matemática do Buckminster Fuller [arquiteto famoso pelos domos]. Ele não era um cara que pensava só em geodésicas; pensava na eficiência da habitação, do transporte, no futuro, na preservação do clima. (…) Tenho todos os livros dele. Adorei o modo de o cara pensar. Ele construiu várias teorias sobre assuntos que eu acho legais: eficiência, durabilidade, baixo custo e acessibilidade.

Fonte: Folha de São Paulo

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